qua. ago 10th, 2022

Sindicalista foi um dos fundadores do PT no Acre e foi assassinado em julho de 1980, no interior do Acre. Criminosos e mandantes nunca foram descobertos. Órgão federal encaminhou ofício para o MP-AC, TJ-AC, governo e o comando do Exército solicitando informações e registros documentais sobre as investigações da morte do sindicalista


Wilson Pinheiro foi assassinado em julho de 1980 em Brasileia — Foto: Reprodução

Wilson Pinheiro foi assassinado em julho de 1980 em Brasileia — Foto: Reprodução

Após 41 anos da morte do ex-seringueiro e sindicalista Wilson Souza Pinheiro, o Ministério Público Federal do Acre (MPF-AC) instaurou um inquérito civil para apurar possível omissão na investigação da morte do líder seringueiro. Pinheiro foi assassinado, em circunstâncias até hoje não reveladas, em julho de 1980.

O assassinato ocorreu dentro da sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasileia, interior do Acre, nunca foi elucidado e causou comoção. O ex-seringueiro era um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) no Acre e o enterro dele contou com a participação do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva.

O inquérito quer saber como atuou cada ente federado nas investigações sobre a morte do ativista. Para isso, o órgão federal encaminhou ofícios para o Tribunal de Justiça do Acre (TJ-AC), Ministério Público Estadual (MP-AC), governo estadual e o comando do Exército Brasileiro solicitando informações sobre processos ou procedimentos que foram instaurados para investigar o assassinato e também registros documentais sobre o crime.https://bac2c582de56fed80773dce782fd62e3.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

O procurador regional dos Direitos do Cidadão no Acre, Lucas Costa Almeida Dias, determinou também a realização de uma oitiva com a filha do ex-seringueiro, a professora aposentada Hiamar Pinheiro, e que sejam feitas pesquisas sobre personagens importantes da época.

Para o procurador regional, ‘apurar a atuação dos entes federados na investigação do caso Wilson Souza Pinheiro, especialmente a existência de eventual acervo documental sobre o crime, objetivando a defesa da verdade e da memória, é uma forma de executar as medidas da Justiça de Transição, buscando a promoção da Justiça, revelação da verdade, reparação das vítimas, preservação e divulgação da memória e implementação de reformas institucionais’.

O comando do Exército informou ao g1 que ainda não recebeu nada referente ao inquérito. A assessoria de comunicação do MP-AC disse que o ofício é analisado para verificar quais providências serão adotadas.

O Tribunal de Justiça informou que o ofício foi enviado para a presidência, mas ainda não há uma manifestação.

A porta-voz do governo, Mirla Miranda, afirmou que Secretaria de Assistência Social dos Direitos humanos e de Política para as Mulheres do Acre (SEASDHM) está montando uma comissão para tratar do tema e que deve passar todas as informações sobre as tratativas ainda nesta terça (23).

Filha tinha 15 anos quando pai morreu: ‘Justiça não se importou’

A professora aposentada e filha de Wilson Pinheiro, Hiamar Pinheiro, de 56 anos, foi ouvida pelo MPF-AC no último dia 18. Ela tinha 15 anos quando o pai morreu e acredita que nunca foi instaurado inquérito para apurar a morte do sindicalista. A professora conta que pensa no caso todos os dias.

“Nunca é tarde para fazer justiça. Na época em que ele foi assassinado a Justiça não se importou com o caso, não fez nada para descobrir quem tinha matado, quem tinha mandado matar e ninguém foi para o banco dos réus pagar pela morte”, lamentou.

Hiamar diz que chegaram a apontar alguns suspeitos de ter atirado e os possíveis mandantes, mas nada foi feito de concreto. A professora destacou ainda que a família sofre até hoje sem uma resposta para o crime.

“Não teve prisão e nem julgamento. Meu pai foi assassinado várias vezes. O tiro que o pistoleiro disparou matou, mas o que é mais sofrido é a injustiça que sofremos até hoje. A Justiça não fez nada para desvendar um crime que, ao meu ver, podia ter sido descoberto tudo, mas, até então, na época, a Justiça só era a favor dos grandes latifundiários”, criticou.

Para a professora, os culpados da morte do pai não serão mais encontrados, porém, a Justiça pode fazer um reparo do que não foi feito na época.

“Sofremos danos morais pelo abandono, pela injustiça que fizeram com a vida do meu pai”, concluiu.

Líder seringueiro

Wilson de Souza Pinheiro foi uma das principais lideranças sindicais dos trabalhadores da floresta no Acre. Ele nasceu no Amazonas, mas morou a maior parte da vida na cidade acreana de Brasileia.

Além de defender o direito dos povos da floresta, Pinheiro lutava para combater as derrubadas promovidas por latifundiários. Em 1979, o sindicalista reuniu e liderou vários trabalhadores rurais em uma marcha contra jagunços armados que ameaçavam posseiros da Amazônia. O ato ficou conhecido como ‘Mutirão contra a Jagunçada’.

Segundo a história, no mesmo ano Pinheiro liderou ainda outra comissão de trabalhadores rurais e indígenas acreanos que lutava pelo fim do conflito entre os indígenas da etnia Apurinã e pessoas assentadas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) nas terras indígenas.

Um ano depois, o Wilson Pinheiro foi morto a tiros dentro da sede do sindicato em Brasileia.

fonte: g1acre