qui. jun 30th, 2022
  • Reservatórios do Centro-Sul do país se recuperaram da estiagem de 2021
  • Bandeira tarifária deve permanecer verde ao longo do ano
  • Cautela de especialistas com racionamento se contrapõe a otimismo de órgão do governo

As fortes chuvas que atingiram o sudeste do Brasil ao longo do período chuvoso, causando até mesmo tragédias como a ocorrida em Petrópolis em fevereiro, trouxe um respiro para o setor energético do país. A caixa d’água do país acumula atualmente mais de 66% da capacidade de seus reservatórios com a chegada nas próxima semanas da temporada de estiagens em grande parte do país. Nesta mesma época no ano passado, o subsistema sudeste/centro-oeste operava com 35% do volume máximo.

Para o ONS (Operador Nacional do Sistema elétrico), este índice deve ser o observado somente ao fim da estação seca, por volta de outubro ou novembro, de acordo com as projeções.

O subsistema que em 2021 sofreu com a pior crise hídrica dos últimos 90 anos possui este apelido por contar com 20 usinas hidrelétricas responsáveis por mais de um terço de toda a energia elétrica gerada no país e por 70% de todos os reservatórios nacionais. Juntas elas têm potência de quase 18.500 MW, energia suficiente para abastecer a Argentina inteira aproximadamente.

O volume de chuvas no verão da região centro-sul do país combinado a uma diminuição na geração elétrica destas usinas – priorizando assim o armazenamento, prática que não foi adotada de modo mais assertivo no ano passado, de acordo com especialistas do setor – resultou no melhor nível dos reservatórios do subsistema desde 2012.

Nesta segunda-feira (18), por exemplo, as usinas combinadas da região geraram 3.873 MW, ou quase 20% da capacidade total. Ao longo de grande parte dos meses de Julho, Agosto e Setembro do ano passado, enquanto se agravava a seca nos reservatórios, as plantas trabalhavam produzindo em torno de 5.000 MW. A queda na geração hidrelétrica acabou por favorecer os lagos das usinas.

O lago de Furnas, por exemplo, maior entre as 20 usinas e apelidado de Mar de Minas por sua dimensão, está na cota 766,1m, ou 84% da sua capacidade total. Um mar de mais de 14 trilhões de litros de água. A última vez que a usina acumulou mais água foi em 25 de Abril de 2012, segundo os dados do ONS (Operador Nacional do Sistema), que em conjunto com a ANA (Agência Nacional de Águas) monitora e controla as represas do Sistema Interligado Nacional.

A cheia foi inclusive uma das causas de outra tragédia ocorrida no verão deste ano, quando turistas que passeavam de lancha pelo lago, na cidade mineira de Capitólio, foram atingidos por um bloco do paredão de rochas que forma o canyon de Furnas. Oito pessoas morreram no acidente.

De lá para cá foram sucessivos verões cujas chuvas não repuseram a água usada para geração ao longo dos períodos secos. Entre eles o ano de 2014, quando o Estado de São Paulo, sobretudo a região metropolitana, viveu a pior crise hídrica de sua história. O sistema Cantareira ficou abaixo do nível mínimo considerado até aquele ano, levando a Sabesp a explorar o então inutilizado “volume morto”. No ano passado, o racionamento de água voltou a assombrar os paulistas com o Cantareira acumulando menos água que em 2013 antes da crise.

“A gestão correta levou a termos a situação mais favorável das represas em 10 anos na região sudeste e centro-oeste do país, o que indica que ao longo de todo este ano devemos operar nossa geração dentro do esperado”, afirmou em coletiva de imprensa na última semana Luiz Carlos Ciocchi, diretor-geral do ONS. Ele afirmou ainda que a bandeira verde da tarifa elétrica deve ser mantida ao longo de todo o ano com a operação otimista. Quem regula a tarifa é a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).

De acordo com os cálculos apresentados, a expectativa do ONS é de que a capacidade dos reservatórios do Sistema Interligado Nacional (SIN) possa chegar em novembro, no fim do período seco, com nível mínimo de 40% e máximo de 60%.

Desde setembro do ano passado o país vinha utilizando maior geração de energia em termelétricas movidas com combustíveis fósseis, como o carvão e o diesel. O custo desses insumos era repassado ao consumidor, que passou a pagar um extra de R$ 14,20 a cada 100 quilowatts-hora consumidos durante a bandeira Escassez Hídrica. No período de crise foram utilizados em alguns momentos 20 mil megawatts de energia advinda das térmicas. Neste ano a previsão é que se utilize somente entre 5 mil e 6 mil.

Para o professor de agrometeorologia da UFU (Universidade Federal de Uberlândia) Roberto Atarassi, ainda é cedo para declarar o fim do alerta hídrico nas regiões do país afetadas pela seca e cravar que o pior já passou. No polígono das secas do centro-sul – área de grosso modo entre a região de Ribeirão Preto/SP, o triângulo mineiro e Ilha Comprida, entre SP e MS – ele sente que a estação chuvosa encerrou mais cedo neste ano e de modo abrupto.

“Podemos ter uma estação seca tão longa quanto a do ano passado, também por causa do fenômeno La Niña, que deve atingir estas áreas do Brasil”, avalia. “A realidade é que em geral não conseguimos repor as perdas hídricas dos últimos anos, há até mesmo especialistas que consideram que estamos desde 2012 em um mesmo ciclo longo de estiagem e vejo ainda um cenário muito parecido com aquele atravessado em 2014”, completa.

O La Niña, fenômeno causado pelo resfriamento das águas do Oceano Pacífico, causa secas mais intensas na América do Sul, sobretudo nas áreas mais centrais. Por conta das dinâmicas climáticas, no entanto, os cientistas não têm precisão das “fronteiras” do fenômeno que separam onde ele atuará e onde não deve afetar o clima.

Por Yahoo Notícias