sáb. jun 25th, 2022

A sonda Perseverance da Nasa atingiu um momento importante de sua missão em Marte. Nesta terça-feira (17/5), o robô de seis rodas começará a escalar um antigo delta na cratera onde pousou.

Ela vai rolar morro acima, parando de vez em quando para examinar rochas que parecem ter mais chance de possuir sinais de vida passada no planeta.

No caminho de volta, a Perseverance coletará algumas dessas rochas, colocando as amostras na base do delta para serem recuperadas por missões posteriores. O objetivo é trazer esse material de volta à Terra na década de 2030 para uma análise mais detalhada.

“O delta na Cratera Jezero é o principal alvo astrobiológico da Perseverance”, diz a vice-cientista do projeto, Katie Stack Morgan, à BBC.

“Estas são as rochas que acreditamos ter o maior potencial para conter sinais de vida antiga e também podem nos contar sobre o clima de Marte e como isso evoluiu ao longo do tempo”, disse ela.

A sonda fez um pouso espetacular no meio da Cratera Jezero, de 45 km, em 18 de fevereiro de 2021.

Desde então, a sonda vem testando ferramentas e instrumentos, pilotando um mini-helicóptero experimental e coletando uma impressão geral do local.

Mas o principal objetivo do robô ao ir para o local no Planeta Vermelho sempre foi estudar o enorme monte de sedimentos no oeste de Jezero.

Com base em imagens de satélite, cientistas suspeitam se tratar de um delta. As observações iniciais do Perseverance no solo agora confirmaram essa avaliação.

O delta contém rochas de granulação fina depositadas em camadas
O delta contém rochas de granulação fina depositadas em camadas

Foto: NASA/JPL-Caltech/ASU/MSSS / BBC News Brasil

Um delta é uma estrutura que se forma a partir do lodo e da areia despejados por um rio quando ele entra em um corpo de água maior. A desaceleração repentina que ocorre no fluxo do rio permite que qualquer coisa transportada em suspensão caia.

No caso de Jezero, o corpo de água mais largo era muito provavelmente um lago com a largura de uma cratera que existia há bilhões de anos.

“Os rios que fluem para um delta trazem nutrientes, que são úteis para a vida, obviamente; e então o sedimento de grão fino que é trazido e depositado em alta taxa em um delta é bom para preservação”, explica o cientista da missão, Sanjeev Gupta, do Imperial College London, Reino Unido.

“Além disso, se houvesse vida no interior, isso poderia ter sido levado rio abaixo e concentrado em um delta.”

Nos últimos dias, a Perseverance se deslocou em direção a uma “rampa” no delta apelidado de Hawksbill Gap. Esta é uma inclinação suave que levará o robô a uma elevação de algumas dezenas de metros acima do chão da cratera.

A sonda tem um poderoso conjunto de ferramentas e instrumentos em seu braço robótico
A sonda tem um poderoso conjunto de ferramentas e instrumentos em seu braço robótico

Foto: NASA/JPL-Caltech / BBC News Brasil

A subida é uma missão de reconhecimento. Perseverance vai “passear” em busca das rochas mais interessantes.

“A sonda tem um conjunto incrível de instrumentos que podem nos informar sobre a química, mineralogia e estrutura do delta, examinando os sedimentos até a escala de um grão de sal”, diz a cientista da missão Briony Horgan, da Universidade de Purdue, no Estado americano de Indiana.

“Vamos aprender sobre a química deste antigo lago, se suas águas eram ácidas ou neutras, se era um ambiente habitável e que tipo de vida ele poderia ter sustentado.”

É preciso ser claro: ninguém sabe se houve mesmo vida em Marte, mas essas três ou quatro rochas que a Perseverance vai recolher no fundo da cratera podem talvez achar sinais — caso eles existam.

Uma ilustração mostra a Cratera Jezero, como ela teria sido há bilhões de anos atrás, se tivesse sido um lago
Uma ilustração mostra a Cratera Jezero, como ela teria sido há bilhões de anos atrás, se tivesse sido um lago

Foto: NASA/JPL-Caltech / BBC News Brasil

É pouco provável que o próprio robô seja capaz de atingir conclusões definitivas — por mais inteligentes que sejam seus instrumentos. Mesmo na Terra, onde sabemos que a vida microbiana existe há bilhões de anos, a evidência de suas primeiras formas fossilizadas é de difícil interpretação, e ainda é polêmica.

Estabelecer se houve mesmo vida em Marte terá que esperar até que as rochas cheguem na Terra para uma análise detalhada que apenas os maiores laboratórios estão equipados para realizar.

“A afirmação de que existe vida microscópica em outro planeta do nosso Sistema Solar é uma afirmação enorme. E, portanto, a prova também precisa ser enorme”, diz Jennifer Trosper, gerente do projeto Perseverance da Nasa.

“Eu não acho que os instrumentos que temos por si só possam fornecer esse nível de prova. Eles podem fornecer algo como ‘achamos que pode ser isso’, e depois, quando trouxermos as amostras de volta à Terra e usarmos instrumentos mais sofisticados, poderemos ter certeza”, disse ela à BBC News.

Ilustração das amostras deixando Marte para a Terra em um foguete lançado da Cratera Jezero
Ilustração das amostras deixando Marte para a Terra em um foguete lançado da Cratera Jezero

Foto: NASA / BBC News Brasil

No final do ano, espera-se que a Perseverance deposite um primeiro conjunto de rochas quando ela retornar ao fundo da cratera. Isso incluirá não apenas as rochas coletadas durante a descida de Hawksbill, mas quatro amostras coletadas nos meses anteriores no fundo da cratera.

A Nasa, juntamente com a Agência Espacial Europeia, está em estágios avançados de planejamento das missões necessárias para pegar essas rochas depositadas e enviá-las à Terra. Esses projetos — que envolvem outra sonda, um foguete de Marte e uma espaçonave transportadora — devem ser lançados no final desta década.

A Perseverance ainda tem anos de trabalho pela frente. Depois de depositar seu primeiro estoque de rochas, a sonda voltará para Hawksbill Gap até o topo do delta e além dele, para visitar rochas que parecem ser os restos da costa do antigo lago Jezero.

Esses depósitos são feitos de minerais de carbonato e, novamente, parecem ter se formado em um ambiente propício ao registro da vida passada em Marte — se é que ela existiu.

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